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Com o intuito de ajudar pessoas com limitação financeira a ser recolocarem no mercado profissional, as Escola Bilíngue Recreio School, que atua na Zona Oeste do Rio de Janeiro, está ofertando 110 vagas para desempregados que, por falta de oportunidades, passaram a viver nas ruas.

As aulas são semanais e totalmente gratuitas. O curso é realizado no campus Santa Cruz, localizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). De acordo com a organização da escola, a ideia é expandir para outras regiões, a fim de ensinar inglês a mais pessoas. As aulas serão ministradas pelo Professor Stephen Kuzel, original de New Jersey com formação em Ciências Políticas na universidade do Colorado.

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Para se inscrever, o candidato deve entrar em contato com o Recreio Christian School e agendar uma entrevista presencial onde serão avaliados o interesse do participante e se ele possui condições de permanecer até o final do curso. A próxima turma já deve começar na próxima semana.

Serviço: Aulas gratuitas de inglês para moradores de rua 

Quando: Todas as quintas-feiras


Horário: 13h00

Local:  RCS - Recreio Christian Scholl

Endereço: Lopes de Moura, 29 - Bairro Santa Cruz, Rio de Janeiro - RJ

Em 2004, o agricultor pernambucano José Codácio de Lima, 47, passou por uma série de problemas familiares em sua casa e foi morar nas ruas. Quinze anos se passaram e ele nunca conseguiu uma outra moradia. Migrou pela capital pernambucana, por São Paulo, Goiás e Salvador e viveu diferentes momentos das políticas públicas destinadas aos moradores em situação de rua no país.

José relembra que, na condição de morador que vive nas ruas, se alimentar bem era mais fácil há dez anos atrás pela existência de dois restaurantes populares no Recife. “Antigamente, a gente ia lá, almoçava e pagava um real. Eu viajei pelo Brasil e todos esses locais tinham esses restaurantes. Quando eu voltei para o Recife, os que funcionavam aqui tinham fechado e até hoje é uma luta diária para conseguir uma quentinha”, detalha.

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Os dois estabelecimentos que José Codácio se refere foram abertos em meados de 2005. Um deles era o Centro Social Urbano Bidu Krause e servia 350 refeições com 1.300 calorias, por R$ 1, de segunda a sexta, das 11h30 às 13h30. O outro ficava localizado no Cais de Santa Rita e se chamava ‘Restaurante Prato Popular’, oferecia refeições a R$ 1 no Centro do Recife. Neste último, era disponibilizadas cerca de 300 refeições, também e os interessados precisavam fazer um cadastro de identificação. O restaurante era uma parceria entre a Prefeitura do Recife, a empresa Coca-Cola e o programa Fome Zero, do Governo Federal.

Um inquérito no MPPE vai  avaliar a inexistência de restaurantes populares no Recife e na Região Metropolitana. Foto: Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Atualmente, o Recife está longe da premissa de que o fornecimento de alimento seguro para consumo é uma questão de política pública. A ideia desses restaurantes era favorecer trabalhadores informais da região, pessoas de baixa renda e moradores em situação de rua. Mas, além dos dois restaurantes não existirem mais, não há, no Recife, um estabelecimento gerido pela gestão municipal para subsidiar essas refeições com o baixo custo, a exemplo do que acontece em outras cidades, inclusive de Pernambuco.

No Sertão pernambucano, o ‘Restaurante Popular de Petrolina’ é uma iniciativa coordenada pela gestão municipal, através da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. O local oferece diariamente uma alimentação saudável e equilibrada que está disponível à população por apenas R$ 1,50. Diariamente, são servidas cerca de mil refeições e o cardápio varia entre baião de dois, carne de bode, feijoada, doces caseiros e sucos naturais.

Com o intuito de resolver a situação na capital pernambucana, de forma emergencial, foi aberto um inquérito civil no Ministério Público Estadual, com o objetivo de investigar a suposta violação do Direito Humano à alimentação adequada voltada para a população em situação de rua e vulnerabilidade social pelo município do Recife e pelo Estado de Pernambuco. A ação vai avaliar a inexistência de restaurantes populares no Recife e na Região Metropolitana.

Segundo o Manual dos Restaurantes Populares de 2004, elaborado pelo Governo Federal, restaurantes populares consistem em "estabelecimentos administrados pelo poder público que se caracterizam pela comercialização de refeições prontas, nutricionalmente balanceadas (…) a preços acessíveis, servidas em locais apropriados e confortáveis, de forma a garantir a dignidade ao ato de se alimentar. São destinados a oferecer à população que se alimenta fora de casa, prioritariamente aos extratos sociais mais vulneráveis, refeições variadas, mantendo o equilíbrio entre os nutrientes", diz trecho do documento. 

No dia 19 de dezembro 2018, foi debatido em uma reunião no MPPE, um Plano Emergencial que previa a possibilidade do fornecimento de 900 refeições diárias nas Regiões Político Administrativas 1, 2 e 6 do Recife. De acordo com a ata de reunião, o qual a reportagem do LeiaJá teve acesso, seria necessária a elaboração de um projeto a ser submetido à apreciação da Procuradoria Geral do Município e um levantamento de custos para a implantação do plano.

Avaliou-se inserir no Plano Emergencial de Segurança Alimentar para a População de Rua algumas ações, como o levantamento de espaços no município que poderiam servir para o funcionamento de restaurantes populares e a intensificação do debate com instituições públicas e privadas. Participaram da reunião representantes da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude, Pastoral do Povo da Rua, Conselho Municipal de Segurança Alimentar, Superintendência de Ações de Segurança Alimentar e Nutricional, Gerência de Proteção Social Especial de Média Complexidade e Vigilância Sanitária Municipal.

Voluntária da Pastoral do Povo de Rua exibe o documento que comprova a reunião entre os poderes públicos e sociedade civil. Foto: Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Saúde e alimentação convivem lado a lado

Em 2011, um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que os hábitos alimentares de 90% da população brasileira estão fora dos padrões recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Os responsáveis por isso são principalmente alimentos calóricos e de baixo teor nutritivo presentes na nossa dieta.

Uma outra pesquisa aponta que uma em cada cinco mortes em todo o mundo é causada pela má alimentação. A estatística foi divulgada pela revista científica The Lancet, que analisou os hábitos alimentares das populações de 195 países. Ainda de acordo com a publicação científica, todos os anos 11 milhões de pessoas morrem em decorrência de doenças causadas por dietas consideradas de baixa qualidade.

Em entrevista ao LeiaJá, o frei Marcos Carvalho, coordenador Pastoral do Povo de Rua explicou que o projeto para a construção de um restaurante popular no Recife está previsto no Plano Municipal de Política Pública para a população em situação de rua e deveria ter sido executado em 2017, mas não foi cumprido pela gestão. Confira o documento na íntegra.

População em situação de rua cresce a cada ano na cidade do Recife. Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

“O inquérito do MPPE veio justamente por isso, porque como a medida não foi elaborada, pensamos no plano emergencial das 900 quentinhas, a curto prazo, até que se voltasse a pensar nesse restaurante popular. A proposta chegou a ser dialogada com a gestão municipal e estadual para a população em situação de rua ser atendida, nesse sentido”, explicou Marcos.

Apesar das deliberações da reunião no Ministério Público, em que o prazo para o início da distribuição dessas quentinhas seria março de 2019, em maio do mesmo ano, ainda não há sinal de andamento no projeto. “A gente já está dois meses atrasados e os processos de elaboração desse plano estão pendentes na área jurídica da Prefeitura da Cidade do Recife”, denuncia.

Para o coordenador da Pastoral do Povo de Rua, a burocracia e falta de interesse dos gestores atrasa um plano que deveria ser emergencial. “Precisamos pensar em encurtar esses prazos para que corram de forma mais célere. Inclusive foi uma das propostas do promotor na audiência pública de que não se fosse para esperar tanto tempo, afinal, estamos falando da alimentação, algo crucial na vida de todos seres humanos. Não há boa vontade em resolver a questão”, diz.

Coordenador da Pastoral do Povo de Rua há dois anos, Marcos avalia que projetos esbarram na falta de vontade política. Foto: Júlio Gomes/LeiaJáImagens

A comida como uma política pública e os números preocupantes no Recife

Eleito representante dos moradores em situação de rua, o pedreiro José Antônio de Souza, 51, vive no centro da capital pernambucana há sete meses, quando saiu de casa. Ele conta que não chegou a passar fome porque, apesar das dificuldades, comida é algo que quase sempre é mais fácil de conseguir. “Temos que correr para conseguir todas as refeições do dia. Seja um lanche ou uma janta. A gente vive do apoio das comunidades voluntárias que passam em horários diversos. Na fome você tem que aceitar o que vier”, explica.

Toinho, como é conhecido pelos amigos da rua, conta que apesar de nunca ter passado fome, muitas vezes gostaria de ter um espaço para tomar um banho e realizar a sua refeição em um prato limpo, com talheres e sentado, como as pessoas costumam fazer nos restaurantes ou em suas casas.

“O único local que podemos fazer isso é nos Centros POPs, mas são poucas vagas e não dá para ir todos os dias, só podemos duas vezes na semana e se conseguirmos a ficha, bem disputada. Eu acho às vezes que a gente deixa de ser humano e passa a ser visto como bicho porque estamos na rua”, lamenta o representante dos moradores em situação de rua do Recife.

José Antônio, eleito representante do povo de rua. Foto: Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Mensalmente, cerca de 200 pessoas diferentes são atendidas nos dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro POP) da Prefeitura. Esses locais atendem pessoas em situação de vulnerabilidade social para ter acesso à alimentação, higiene pessoal (banho), atendimento psicossocial e podem ser encaminhadas para acolhimento (se quiserem e se enquadrarem no perfil). Os Centro POP funcionam de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h, e estão localizados nos bairros de Santo Amaro (Centro POP Glória) e Madalena (Neuza Gomes).

Nos dois centros da PCR são oferecidas cerca de 90 refeições diárias, cada uma, somando café da manhã, almoço e janta, para as pessoas em situação de rua que estão utilizando os serviços dos centros. Ou seja, apenas 60 pessoas podem utilizar os serviços diariamente, 30 em cada um.

O número, no entanto, está longe de ser suficiente e efetivo, na visão do coordenador da Pastoral do Povo de Rua, Marcos Carvalho. “Os dois centros fornecem um número insuficiente diante da atual quantidade de pessoas vivendo nas ruas do Recife”, pontua.

De acordo com o último levantamento feito pela Prefeitura do Recife, cerca de 1.200 pessoas vivem em situação de rua na capital pernambucana. Esse número também é visto com desconfiança por Marcos. “Em 2005, a UFPE realizou uma pesquisa nos moldes da academia e identificou cerca de 1500 moradores em situação de rua. Com a crise e o desemprego, a gente sabe que esse número aumentou muito, é só olhar nas ruas da cidade, você verá gente dormindo em todas as calçadas”, detalha Carvalho.

Ele comenta ainda que a função de alimentar essas pessoas acaba ficando sob responsabilidade de ONGs, entidades voluntárias e cristãs, grupos de caridade e até restaurantes privados. “Essas pessoas se compadecem com a situação de quem está com fome e fornecem essa alimentação. Mas, o problema é que a caridade nem sempre é feita da forma correta e digna, como todo ser humano deveria ter acesso por lei. São quentinhas sujas, muitas vezes, o fato de comer no meio da rua sem nenhuma higiene. É por isso que o restaurante a baixo custo é tão necessário”, explica Marcos.

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Se a situação da verba para o financiamento do restaurante popular estava difícil, em 2019, pode piorar ainda mais. Isso porque o presidente Jair Bolsonaro (PSL), através de uma medida provisória, retirou do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) a atribuição de propor ao governo federal as “diretrizes e prioridades” da política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar. Dessa forma, o conselho, antes formado por alguns representantes da sociedade civil, foi extinto e suas funções foram transferidas ao Ministério da Cidadania.

Na avaliação de Marcos, essa medida tem como consequência o não avanço de políticas públicas do governo federal nesse sentido, sobretudo referentes a segurança alimentar. “Antigamente, um programa federal financiava os restaurantes populares e as cozinhas comunitárias e foram extintos. Com essa nova extinção do próprio conselho, o impacto é grave e a reativação desse programa segue fora de cogitação”, destaca o frei, que coloca na conta da gestão municipal e estadual o financiamento e o repasse de recursos para a criação do restaurante e o cumprimento da medida emergencial.

Procurado pela reportagem do LeiaJá, o MPPE informou que a Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos da Capital não recebeu nenhuma resposta sobre os resultados da última reunião. Por meio de nota, o órgão destacou que diante da falta de resposta dos órgãos públicos, o MPPE encaminhou ofício para que compareçam a nova audiência sobre o tema, marcada para o dia 12 de junho, às 16h30, na sede das Promotorias da Capital.

“Em relação ao fornecimento emergencial das 900 quentinhas, não podemos afirmar se a medida foi implementada ou não por causa da falta de respostas. O ideal seria questionar a Prefeitura sobre o fato”, diz trecho da resposta do MPPE.

"Atualmente, a gente conversa com a Secretaria Executiva de Assistência Social do município para mobilizar e saber do percurso que está a medida. Também já buscamos junto ao MPPE o andamento do processo e o não cumprimento dessa ação. Além disso, também temos dialogado no Conselho de Segurança Alimentar no Recife em busca de respostas da gestão. A gente não percebe muita celeridade neste processo, apesar de pressionarmos de diversas formas. E colocamos os próprios moradores em situação de rua como protagonistas para que eles participem das audiências e peçam por seus direitos”, complementou Marcos, insatisfeito com a demora da gestão municipal em colocar um projeto em funcionamento.

Já a Prefeitura do Recife se posicionou através da  Secretaria Executiva de Assistência Social. A nota informa que vem sendo construído coletivamente - poder público e sociedade civil - uma proposta emergencial para o fornecimento de refeições para a População em Situação de Rua (PSR). O órgão minimizou a urgência da situação e pontuou que a questão segue em debate e não está em inércia.

“As discussões têm sido fundamentadas na Política Nacional de Segurança Alimentar. Para isso, foi criada uma comissão e elaborado termo de referência para  construção de edital para a seleção de organizações que apresentam em seus fundamentos a segurança alimentar e nutricional. No que se refere a implantação de um restaurante popular, as tratativas estão acontecendo e o pleito vem sendo conversado  junto ao Governo Estadual, para a viabilizar o projeto, assegurando uma solução estrutural que possibilite a construção do Restaurante Popular”, nota enviada pela PCR.

Histórico da administração pública brasileira em torno desse tipo de ação pública

Política pública de combate à fome no Brasil ganhou força com o Programa Fome Zero, em 2003. Foto: Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Na história do Brasil, em 1940, uma iniciativa de Getúlio Vargas instituiu o chamado Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), que era um modelo de restaurantes públicos que ofereciam alimentação às populações pobres, posteriormente desativado pelo golpe militar, em 1968.

Os restaurantes populares só ganharam força efetivamente, enquanto estratégia de promoção da segurança alimentar em grande escala, em 2003 como parte integrante do programa Fome Zero do Governo Federal sob comando do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, o programa tinha o intuito de superar o problema persistente da fome no país.

O projeto elaborou uma série de medidas, dentre elas, a criação desses restaurantes em cidades com mais de 100 mil habitantes no Brasil. E a iniciativa teve sucesso, sendo o Brasil reconhecido internacionamente pelas políticas de combate à fome e promoção da segurança alimentar e nutricional.

Em 2014, o país conseguiu sair do mapa da fome, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Cinco anos depois, o novo governo extingue o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional. A medida provocou diversas reações e movimentos sociais promoveram uma mobilização social para exigir que a comida continue sendo direito de todos e que a participação da sociedade na tomada de decisões seja garantida.

“A comida deve alimentar corpo, mente e alma, não matar, nem por veneno nem por conflito. Deve erradicar a fome e conservar a natureza, promover saúde e a paz entre os povos. Comer é ato político e o que comemos determina o sistema alimentar que fomentamos com nossas escolhas”, diz o manifesto publicado na página do banquetaço em uma rede social.

''Banquetaço'' destaca política nacional de alimentação

Entre as contribuições do Consea estão a definição e aprimoramento de políticas públicas como a estratégia Fome Zero, a Política e o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, programas de convivência com o semiárido, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, o Plano Safra da Agricultura Familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Guia Alimentar da População Brasileira.

Policiais italianos encontraram, na manhã desta terça-feira (15), mais um morador de rua morto em Roma, o nono em menos de três meses. O primeiro caso ocorreu em 29 de outubro, quando uma sem-teto alemã de 75 anos foi achada sem vida na Praça São Pedro. Um mês depois, outro corpo foi encontrado, em uma calçada do bairro de San Lorenzo, e desde então os casos se tornaram mais comuns, especialmente por causa da chegada do inverno europeu.

Em 8 de janeiro deste ano, um morador de rua morreu carbonizado em sua barraca na Ponte Sublicio. Segundo as investigações da polícia, o incêndio teria sido causado por uma fogueira que o próprio homem acendera para se proteger do frio.

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A Cruz Vermelha disse que Roma vive uma "situação intolerável", "uma emergência que pede por uma solução urgente". Já o Centro Astalli, instituição jesuíta de assistência, disparou: "Não chamemos de vítimas do frio; são nove mortos por falta de assistência e abrigo".

A Prefeitura de Roma afirmou ter ativado um plano que oferece 1.661 vagas em abrigos, embora existam cerca de 8 mil moradores de rua na capital, número que pode chegar em 14 mil se contabilizados os que já estão em abrigos ou centros de acolhimento.

"A situação que encontramos nas ruas é dramática", declarou a presidente da Cruz Vermelha de Roma, Debora Diodati. "Ou se entende que a situação dos sem-teto deve ser resolvida, ou arriscamos fazer a trágica contagem de vítimas nas noites de frio", acrescentou.

A prefeita Virginia Raggi estaria trabalhando em um projeto para obrigar moradores de rua a aceitarem ofertas de acolhimento em abrigos quando as temperaturas caírem muito.

Da Ansa

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O Brasil é um país marcado por disparidade social. Alguns têm muito, outros quase nada. Em pleno Réveillon do Recife, mais precisamente em Boa Viagem, zona sul da capital, a personificação de dois mundos: daqueles que ostentam e agradecem por tudo aquilo que conquistou em 2018, outros que só agradecem pela vida – mesmo que pobre -.

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Enquanto na beira mar há festa, pirotecnia, fogos de artifícios e uma massa vestida de branco pulando as setes ondinhas e fazendo todos vários tipos de ritos, embaixo das pontes que levam os carros até a praia estão centenas de pessoas que, sequer, têm um teto para chamar de seu.

Na ponte da Avenida Agamenon Magalhães, área central do Recife, Fernando Vitor de Melo passará o seu 46º Réveillon sem ter direito ao que comer. Pai de uma pequena menina de 5 anos, casado com uma, também, moradora de rua, ele não esmorece e acredita que a sua vitória vai chegar.

“Eu espero que este ano novo traga tudo de bom para a gente, principalmente para a minha filha. Eu não posso ficar triste, porque assim eu não ganho nada”, revela Fernando.

O morador de rua, que depende da boa vontade das pessoas para conseguir sustentar sua família, ainda divide o espaço onde mora com outras pessoas que passam pela mesma necessidade que ele. Como é o caso de Dona Josefa Gomes Santos, 80 anos. Ela, que ainda trabalha como catadora de recicláveis e sobrevive de uma pensão que o marido deixou, encontra na rua e na boa vontade do próximo o seu sustento pleno e o da sua filha, que tem condições especiais.

Nesse caso, dona Josefa tem casa, mas vive embaixo das pontes para conseguir angariar alimentos que são distribuídos nas noites recifenses para levar para sua residência, um pequeno barraco dentro da favela do Xié, Zona Leste da capital.

Na outra ponta, em Boa Viagem, milhares de pessoas esperando a contagem regressiva para a virada do ano. Com mesa posta na beira mar com bastante fartura, a família Lira Cavalcante se despede de 2018.

Essa família, diferente da de Fernando, tem casa e comida. Por isso e pela saúde, agradecem o ano que se foi. “Pelo Grupo de WhatsApp reunimos a família, montamos uma comissão que ficou responsável pelas comidas e agora estamos aqui nessa confraternização”, aponta Nelma Lira.

No mesmo espaço, nossa equipe de reportagem encontrou a família Cruz. São 20 pessoas reunidas para agradecer e pedir. “Sempre importante reunir a família e os amigos para confraternizar. Ano passado ficamos em Porto de Galinhas, o ano retrasado (2016) no Rio de Janeiro e este ano resolvemos passar a virada aqui em Boa Viagem. Mesmo sendo moradores daqui, nunca tínhamos nos reunido para a virada em Recife. Só temos a agradecer”, diz Agnaldo Arantes Cruz.

Mostramos um pouco a realidade em que vivem as pessoas. Umas têm muito o que agradecer, outras nem tanto, mas mesmo assim parecem não perder a fé e a esperança de que um dia o direito à moradia, uma mesa farta e a barriga cheia sejam algo para todos, e não uma exceção.

Com os seus altos e baixos, 2018 se vai e abre espaço para um novo ano em que as pessoas esperam que possa ser melhor do que os outros. Seja de branco ou de preto, embaixo da ponte ou na orla, todas as pessoas agradecem por um único bem comum: a vida.

Levantamento de pessoas em situação de rua

Em último levantamento realizado para saber quantas pessoas estão em situação de rua, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostra que o Brasil tem pouco mais de 100 mil pessoas vivendo nas ruas, sendo os grandes municípios responsáveis pela maior parte dessa população.

No entanto, o que chama a atenção é que esses dados são de 2015, de lá para cá - principalmente com a acentuada crise financeira que o país veio e ainda está enfrentando -, deve ter aumentado esse número, já que milhares de pessoas ficaram desempregadas.

Quem conhece melhor as vias de uma cidade, seus segredos e suas esquinas mais escondidas do que um morador de rua? Em Zagreb, capital da Croácia, vivem cerca de 1,5 mil sem-teto, e muitos se tornaram guias turísticos graças à iniciativa de uma organização humanitária e de uma agência de viagens.

O tour alternativo "Zagreb Invisível" conduz os visitantes pelo centro da cidade, passando pela estação ferroviária e por mercados e parques a céu aberto. Esse tipo de passeio oferece aos turistas uma perspectiva diferente da vida em uma metrópole.

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Uma das opções, por exemplo, é começar o tour no parque Tomislav, um jardim belíssimo e público ideal para quem busca paz e serenidade. Mas, para os moradores de rua, o local pode ser um verdadeiro pesadelo, já que eles correm o risco de ser presos pelos numerosos policiais que patrulham no local.

O passeio foi criado por um ex-sem-teto chamado Mile Mrvalj.

Originário de Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, e formado em história da arte, ele tinha uma galeria de esculturas e quadros.

Entretanto, as dívidas o obrigaram a fechar o negócio e a viver nas ruas por três anos e meio.

O tour "Zagreb Invisível" é gratuito, mas eventuais doações servirão de ajuda a quem ainda não possui um teto. 

Da Ansa

Na manhã desta terça-feira (28), Grazi Massafera aportou no Recife para celebrar o Dia Nacional do Voluntariado. Convidada pelo projeto da Casa Vincular, Grazi serviu café da manhã aos moradores de rua da cidade.

Além de conhecer a história do local, no bairro de Campo Grande, Zona Norte do Recife, a atriz escolheu algumas roupas arrecadadas pela instituição para doar às pessoas atendidas na ação solidária.

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A população em situação de rua no Recife terá acesso à vacina contra a gripe nesta quinta (19) e sexta-feira (20). A ação, organizada pela Secretaria de Saúde do Recifes, acontecerá entre 9h e 16h, e ofertará 200 doses de vacina de influenza.

A vacinação será feita nos dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros Pop): na quinta, no Centro POP Glória (Santo Amaro); na sexta, no Centro POP Neuza Gomes (Madalena). Usuários de outras áreas da cidade estão sendo avisados pelas equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas).

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Além da vacinação, também serão oferecidos testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites, teste de tuberculose e emissão de Cartão SUS. No local, os profissionais distribuirão preservativos masculinos e femininos.

Nesta segunda-feira (12), o Recife faz aniversário e completa 481 anos. Dois anos mais velha, Olinda, que é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, faz 483 anos. Apesar das diversas atividades culturais espalhadas em diferentes pontos das cidades irmãs em homenagem à data, nem tudo é motivo de celebração. Para moradores em situação de rua, o maior desejo de aniversário é que as metrópoles sejam cidades mais humanas com todos habitantes, com ou sem moradia.

Vivendo nas principais vias das cidades e acostumados com os olhares indiferentes, moradores em situação de rua quase sempre carregam histórias tristes e motivos semelhantes para ter ido buscar oportunidades nas ruas. A falta de uma moradia fixa, de um lugar para dormir permanentemente, vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e desilusões amorosas. M.A, 67, veio do Rio Grande do Norte para morar em Olinda com quatro anos. Dois anos depois a mãe faleceu. Aos nove, já estava nas ruas.

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O idoso diz ter uma relação muito íntima e pessoal com as duas cidades porque já viveu sob marquises, em praças, embaixo de viadutos e pontes. Conheceu na pele a realidade de Olinda e Recife. "Eu sempre fico por Olinda, na igreja de Rio Doce, porque é uma terra muito boa, me sinto mais acolhido do lado de cá do que nas ruas do Recife. Nunca tive condições de pagar aluguel, mas também não tenho muitos problemas com a rua porque já me considero adepto das calçadas. Meu único desejo é que nesse aniversário, Olinda seja mais humana com os moradores de rua. Desejo menos desprezo, apesar de que já me acostumei com ele", disse.

Também moradora das ruas de Olinda por quase toda a vida, E. I, de 39 anos, nem sabia que nesta segunda-feira (12) era celebrada a data de aniversário das cidades irmãs. Quando recebeu a informação, também deu com os ombros e não ligou muito. "Perdi minha mãe aos oito anos. É um desgosto que a gente sente pela vida que você pode nunca mais se recuperar. Eu comecei a beber e não me envergonho disso", diz a moradora que lava carros para conseguir um trocado, no bairro de Rio Doce. Para ela, a celebração das cidades nem deveria existir.

"Eu não acredito em melhoria, esses políticos não nos enxergam. A gente pede um prato de comida numa porta e ninguém quer dar. Um copo de água as pessoas negam. Nem uma carona os motoristas dão. Nesse aniversário, eu queria ganhar era uma refeição boa para me manter", contou. A mulher também diz que prefere não votar porque não acredita no poder das urnas eleitorais. "Eu tenho título, mas não voto. Não enxergo motivos para votar se não sirvo pra nada, não preciso de conta no banco, nem cartão de crédito. Só votava em Lula. Na minha consciência eu preciso que meus amigos e amigas melhorem de vida igual eu to começando a melhorar", afirmou.

Morar nas ruas é uma condição difícil. Uma série de problemas sociais contribuem para essa dificuldade. Violência, falta de saneamento básico e higiene, a falta de alimentação, a precariedade de uma vida desconfortável e a falta de mais cuidados nos abrigos e albergues públicos. Com quase 500 anos, Recife e Olinda têm realidades semelhantes e o número de pessoas em situação de rua ainda é alto.

Deitado em seu colchão improvisado com espumas e lençóis, o artesão E.C, de 57 anos, chegou há sete meses ao coreto da praça do Carmo, em Olinda. Na rua desde os 14 anos, ele já viveu em várias cidades do país e considera a cidade histórica uma das melhores porque recebe comida quase todos os dias. “Mas quem mora no meio do mundo não se sente acolhido em canto nenhum. Eu já me acostumei com essa vida porque não tenho 200 reais para alugar uma casa e pagar todo mês”, disse o artesão.

No dia em que Olinda completa mais um ano, ele garante: “eu não tenho motivos para saber da história de Olinda, se ela não sabe da minha. Vivo na cidade e vou levando a minha arte. Gostaria que houvesse mais cuidado com quem tá na rua. Não é uma escolha, depois de um tempo é sobrevivência. Cada dia é uma vitória e hoje meu lugar favorito é o coreto, amanhã pode ser um viaduto.

No Recife, a quantidade de moradores de rua é maior. De acordo com dados do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) em 2016 havia mais de três mil moradores nas calçadas e praças da capital pernambucana. A moradora itinerante do centro do Recife, M. S, de 37 anos, diz que uma das razões para não celebrar o aniversário da cidade é porque ela não gosta de festas. “Pobre nasceu pra ser pobre e sofrer. Não tenho perspectiva de melhora de vida porque nenhum amigo cresce na vida. É da rua pra pior. A gente vive pedindo comida e bebendo pra poder esquecer desse sofrimento”, lamentou.

Em Olinda, atualmente há 250 moradores em situação de rua em toda cidade, sendo 150 atendidos pelo projeto Consultório de Rua. De acordo com a Prefeitura da cidade, a iniciativa proporciona benefícios nas áreas de saúde, educação e moradia.

“Os técnicos que trabalham no projeto, idealizado pela Coordenação do Consultório na Rua (CR), e das equipes do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e do Cadastro Único de Olinda (CadÚnico), mapeiam as pessoas em situação de rua, recolhem dados e explicam as ações para tais moradores e em seguida analisam o perfil para realizar a inclusão no Bolsa Família”, diz nota enviada à imprensa.

Já a Prefeitura do Recife afirmou que de acordo com o último levantamento cerca de 1.200 pessoas vivem em situação de rua na capital pernambucana. Dentro do quantitativo total, também se levou em conta as pessoas em situação de rua que vivem atualmente em oito casas de acolhida da Secretaria de Desenvolvimento Social, Juventude, Política sobre Drogas e Direitos Humanos da Prefeitura do Recife.

"A Prefeitura do Recife acompanha os moradores de rua através do Serviço Especializado em Abordagem Social de Rua (SEAS). A Secretaria de Desenvolvimento Social, Juventude, Política sobre Drogas e Direitos Humanos do Recife mapeia as pessoas em situação de rua em toda a cidade e trabalha com a sensibilização e orientação, visando o resgate da cidadania e a retirada consensual dessas pessoas das ruas. Sempre que há aceitação, as equipes do SEAS fazem os encaminhamentos para acolhimento, retirada de documentos, acesso à rede de saúde, inclusão em programas e benefícios sociais e tentativa de reintegração com a família.

Mensalmente, cerca de 200 pessoas diferentes são atendidas nos dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro POP) da PCR. O Centro POP atende uma demanda mais emergencial do usuário. É o local onde as pessoas em situação de vulnerabilidade social podem ser incluídas no Cadastro Único, ter acesso à alimentação, higiene pessoal (banho), atendimento psicossocial e podem ser encaminhadas para acolhimento (se quiserem e se enquadrarem no perfil). Os equipamentos oferecem atendimento e atividades direcionadas à sociabilidade, na perspectiva de fortalecimento de vínculos interpessoais e/ou familiares. Parte do usuário a procura, diferente do SEAS, em que o serviço vai até o morador de rua.

Os Centro POP funcionam de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h, e se localizam nos bairros de Santo Amaro (Centro POP Glória) e Madalena (Neuza Gomes).

- Centro Pop Glória: Rua Bernardo Guimarães, n° 135, Santo Amaro. Próximo à biblioteca da Unicap. Telefones: 3355-3210/4254.

- Centro Pop Neuza Gomes: Rua Doutor João Coimbra, n° 66, Madalena. Telefones: 3355-3063/4".

*Fotografia: Rafael bandeira

Um motorista de ônibus foi esfaqueado em Maceió, capital de Alagoas, depois de não deixar um casal de moradores de rua entrarem pela porta traseira do coletivo nessa quarta (30). Após grande discussão sobre a decisão do condutor do coletivo, o homem cravou a faca no braço do rodoviário e desceu do transporte com sua mulher, grávida.

O motorista relatou que havia pedido que os dois ficassem na parte da frente do ônibus para que ele não tivesse problemas com a empresa. Porém, revoltado, o homem não aceitou a imposição e começou a discutir com o cobrador. “Um passageiro se identificou como policial aposentado e pediu para ele se acalmar e disse que nós tínhamos razão. Foi pior, ele tentou agredir o cobrador, que saiu da catraca. A mulher grávida que estava com ele pediu para descer ai eu parei o carro ela desceu e antes dele descer ele me atingiu com a faca”, explicou o motorista ao site Página 181.

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Antes de descer, no entanto, o agressor enfiou a faca no braço do motorista, que ficou sem reação. A Polícia Militar foi acionada, mas não conseguiu encontrar o casal, porém, as câmeras internas do veículo devem ajudar na localização. Apesar do susto, o motorista foi atendido no hospital e liberado sem grandes problemas.

Dois moradores de rua foram mortos com golpes de barras de ferro na tarde deste domingo, 28, no bairro Casa Branca, em Santo André, na Grande São Paulo. A polícia investiga o paradeiro do agressor, que foi filmado por uma câmera de segurança de uma clínica médica na frente de onde o crime aconteceu.

As vítimas foram identificadas pela Polícia Civil como Fabio Netto das Neves, de 48 anos, e Michael Steer Renshaw, de 50, que nasceu na Inglaterra e morava no Brasil havia cerca de dez anos. Vizinhos os descreviam como "tranquilos e prestativos". Um terceiro homem, também em situação de rua, foi atacado, mas conseguiu fugir.

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Segundo as investigações, a barra de ferro usada nas agressões foi removida da estrutura de um estacionamento na calçada. Familiares das vítimas ainda não foram localizados. No caso de Renshaw, a busca também está sendo feita pelo consulado britânico.

Segundo a polícia apurou com outros moradores de rua, a dupla já tinha se desentendido com o agressor dez dias antes, mas o motivo não foi esclarecido. Ele segue desaparecido e nenhum dos colegas das vítimas soube dizer o nome del

O Movimento Nacional da População de Rua vai promover um evento, hoje (17) e amanhã, na região central da cidade de São Paulo, para relembrar as sete pessoas que foram assassinadas na Praça da Sé em 2004. Intitulado “Virada da População de Rua”, a manifestação contará com várias atividades artísticas e culturais, além de cerimônias em homenagem às vítimas da chacina.

As investigações apontaram que os moradores de rua tinham conhecimento do envolvimento de policiais com traficantes de drogas que atuavam no centro da cidade. O coordenador do movimento, Darcy da Silva Costa, explicou que o evento foi organizado para servir de alerta para o problema da impunidade.

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Confira a programação da Virada:

17/08

19h30 – Caminhada da Praça do Patriarca até o Marco em Respeito à População em Situação de Rua na Praça da Sé

20h – Ato ecumênico em memória às vítimas do massacre da Sé com a participação do padre Júlio Lancellotti

22h – Denúncias de violência e violações de direitos humanos e impunidade

 

18/08

0h – Atrações culturais

5h – Intervenção simbólica e “deitaço” na Praça da Sé

8h – Caminhada Praça da Sé até a Câmara Municipal de São Paulo

10h – Audiência na Escola do Parlamento na Câmara Municipal de São Paulo

13h – Encerramento

O mesmo céu que abriga é o que expõe e deixa vulnerável. É com essa dualidade que vivem moradores de ruas e pedintes do Recife, precisando driblar as dificuldades nos dias de chuva, a insegurança iminente e as necessidades básicas sanitárias e alimentares, em meio ao cenário que os tornam invisíveis para alguns. 

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Pedindo, Maria Margarida e Maria José levam trocados e ganham donativos para manter filhos e netos. Através da boa vontade dos transeuntes, elas conseguem vencer a batalha da fome a cada dia, seja de porta em porta ou aos pés da Basílica da Penha, no Centro do Recife. 

Moradia não é um bem para todos que estão na rua. O viaduto é abrigo para muitos, nem sempre famílias, mas unidos pela mesma necessidade. Sem emprego e lugar para morar, Rosenildo Ferreira e Josenildo Alves, os “Nildos”, levam, além do mesmo apelido, outras coincidências: se amontoam junto com um grupo embaixo dessas estruturas e dividem o quase nada que possuem. 

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Dados

Os próprios moradores de rua sentem o aumento de pessoas ocupando praças, calçadas e se amparando embaixo de marquises. De acordo com o levantamento feito pela Prefeitura do Recife, mais de 800 pessoas vivem em situação de rua na capital pernambucana, segundo o último levantamento de 2016. 

Esses dados foram levantados a partir de uma abordagem a 1.200 pessoas, em horários diferentes, em todas as regiões da cidade. “Desse total, 659 disseram que dormem na rua todos os dias, 240 pessoas (20% dos entrevistados) dormem em casa diariamente (por isso não são considerados moradores de rua) e apenas passam o dia na rua (pedindo dinheiro, lavando carro ou vendendo algo, por exemplo) e 303 pessoas se recusaram a responder ao questionário”.

A PCR explica que, além das 659 pessoas, há 200 moradores de rua em oito das onze casas de acolhida da Secretaria de Desenvolvimento Social, Juventude, Política sobre Drogas e Direitos Humanos da Prefeitura do Recife.

Centro POP

Segundo a Prefeitura, são atendidas cerca de 200 pessoas diferentes, mensalmente nos dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro POP). Este espaço visa atender as demandas emergenciais. “É o local onde as pessoas em situação de vulnerabilidade social podem ser incluídas no Cadastro Único, ter acesso à alimentação, higiene pessoal (banho), atendimento psicossocial e podem ser encaminhadas para acolhimento (se quiserem e se enquadrarem no perfil)”.

Há o Centro Pop Glória, localizado na Rua Bernardo Guimarães, n° 135, Santo Amaro. Próximo à biblioteca da Unicap. Telefones: 3355-3210/4254. Já o Centro Pop Neuza Gomes fica na Rua Doutor João Coimbra, n° 66, Madalena. Telefones: 3355-3063/4254.

A subprefeitura regional da Sé realizou, na manhã de sábado, 30, uma operação de "zeladoria e limpeza" embaixo do viaduto Julio de Mesquita Filho, próximo à rua Major Diogo, na Bela Vista. A ação, no entanto, acabou afetando moradores do local, que tiveram barracos e itens pessoais levados pelos caminhões da prefeitura.

Segundo o subprefeito da região, Eduardo Odloak, o objetivo da ação era "a retirada de excessos de papelão e madeira embaixo do viaduto, o que colocava em risco a estrutura da via".

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No entanto, moradores da região reclamaram da truculência dos agentes, que retiraram, com escavadeira e caminhões caçamba, seus barracos e itens pessoais.

Charles dos Santos, marceneiro de 52 anos, e morador do local há cerca de um ano, afirmou que boa parte do seu material de trabalho foi levado. "Chegaram com caminhões e levaram tudo. Como vou trabalhar agora?". Ao lado da esposa, Jessica Cardoso Siqueira, de 24, ele tentava garantir a permanência de alguns outros objetos.

O relógio mal se aproxima das 12h e começam os preparativos para o almoço coletivo. Duas panelas de alumínio são postas em uma fogueira montada de forma improvisada com tijolos na calçada. Os pratos, talheres e vasilhas são limpos por água potável, coletada de um poço com encanamento para a superfície. De um lado, um grupo cuida da limpeza e com baldes e vassouras retira toda sujeira e mau cheiro do ambiente. Do outro, sentados em um batente de concreto, a conversa se guia pela temática da falta de segurança em morar na rua. De repente, uma discussão se inicia. O grupo de amigos, ou a família, como preferem ser chamados, debatem sobre as pessoas que não ajudam na preparação das refeições, pouco fazem pelo lar, e querem comer em primeiro lugar. 

A cena, típica de uma comunidade, se passa em um quiosque construído na Rua da Aurora, no bairro da Boa Vista, e reformado no ano de 2014 pela Empresa de Urbanização do Recife (URB) para servir de posto de policiamento 24 horas da Guarda Municipal e da Polícia Militar. Se por um lado, o local segue abandonado e em desuso pelo poder público, por outro, moradores em situação de rua fazem dele seu novo lar. Nos quiosques desativados, um grupo de doze pessoas dorme, se alimenta, toma banho e zela pelo local com faxinas diárias para espantar as moscas e o mau cheiro, já que fica a margem do rio. As tarefas são divididas igualmente como acontece em outros locais de moradia privada.

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Instalado no Cais da Aurora, em frente à Secretaria de Planejamento e Gestão do estado (Seplag), o quiosque e suas imediações evidenciam a Rua da Aurora de contrastes, da miséria ao luxo. Idealizada e evocada nos antigos versos de Manuel Bandeira, a Aurora tornou-se um pequeno demonstrativo da desigualdade social da capital pernambucana. De um lado é nostálgica, banhada pelos rios Capibaribe e Beberibe. Do outro, foi alcançada pelo fenômeno da especulação imobiliária no centro do Recife. Empreiteiras e construtoras viram na região um polo de moradia pouco explorado pelo mercado e com boas perspectivas de lucro. 

Da pista com ares desertos habitada no passado por residências históricas à apariação de arranha-céus como o "Jardins da Aurora" e o "Aurora Trend", o morador de rua Andreu, de 43 anos, acompanhou as mudanças de perto. Vivendo há 17 anos na Rua da Aurora e ocupante do quiosque, Andreu diz que o local era uma pista cheia de mato e agora os prédios se perdem no horizonte. Para ele, as estruturas verticais trazem mais beleza ao que deveria ser, em sua opinião, o cartão postal do Recife. 

"Eu acho que deveriam ser feitos mais prédios porque a gente precisa é de moradia. Mas são muitos com tanto e muitos sem nada", diz Andreu, enquanto observa a fachada do Arcos da Aurora Prince, torre de 36 andares localizada em frente ao quiosque, do outro lado da pista. Enquanto explica como veio morar dentro da estrutura desativada da Prefeitura do Recife, o morador relembra que a rotina é difícil, apesar de parecer seguro dentro da estrutura. "Eles já nos expulsaram mais de dez vezes daqui. O pessoal da Guarda Municipal e da Dircon diz que o quiosque não é lugar de moradia. Mas a rua é?, questiona. 

Natural de São Paulo e criado nas ruas da 25 de Março, Andreu demonstra ter o espírito de liderança e é o responsável por organizar tudo e delegar funções na moradia temporária. "Cuidamos do local, impedimos roubos aqui e limpamos todos os dias. A gente também é ser humano. Não é pra chegar aqui e nos colocar pra fora dando choque e paulada, como fazem. Vamos voltar porque não somos animais", diz. Um outro morador do local, Manoel Nascimento, de 58 anos, ouve e concorda com a afirmação. 

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Há dez anos morando na rua por conta de uma separação inesperada com a ex-esposa, Manoel viveu anos nas ruas paralelas à Avenida Conde da Boa Vista, mas quando descobriu a Aurora viu uma chance de ter mais sossego pela calmaria da região. "Ninguém quer viver na rua. Mas aqui pelo menos, temos energia, água encanada, um bebedouro com água gelada que nos foi doado, um cadeado para nos trancar quando a gente dorme. É o básico, mas traz paz", relata. Ele diz que o o prefeito do Recife, Geraldo Julio, costuma passar pela Aurora e não os cumprimenta nem com um bom dia. 

Única mulher do grupo de doze moradores, Dália, de 35 anos, discorda de Manoel e não acha o local seguro e digno de moradia. Enquanto foge da realidade inalando cola de sapateiro em uma garrafa pet de 250 ml, ela lamenta a situação que se encontra. "Não tem conforto, não tem roupa e nem comida. Eu preferia ir para um lugar mais confortável. Todo mundo se ajuda aqui com um real ou dois, a gente compra comida e divide. Mas eu queria ter um cantinho pra morar porque vivem levando meus pertences que já não são muitos", conta. 

"Reformas para quem?" 

Em janeiro de 2016, a Prefeitura do Recife, por meio da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), entregou à população a requalificação do Cais da Aurora, que contemplou a melhoria da iluminação, reposição de guarda-corpo, a recuperação de calçadas e o conserto dos equipamentos dispostos ao longo da via, como mobiliários urbanos e equipamentos de lazer. O investimento foi de R$ 2 milhões. 

Já no início de 2017, de acordo com a gestão municipal, a Emlurb concluiu mais uma obra de revitalização em uma área de 900 metros quadrados, no Cais da Aurora, anteriormente ocupado por um posto de gasolina. O local foi transformado em mais uma opção de convivência para os frequentadores. Os serviços incluíram a ampliação do passeio, implantação de grama e plantio de novas mudas. O projeto, que custou R$ 78 mil, foi previamente discutido com os moradores da Rua da Aurora.

Para Andreu, as reformas só contemplam a parte física da Aurora, mas não olha para o lado humano de quem vive realmente nela. "Do que adianta, uma Rua da Aurora tão bonita com um monte de morador de rua dormindo pelas praças, pelas calçadas e pelos quiosques porque não têm onde morar?", questiona. Para ele, que ganha dinheiro cuidando dos carros em um estacionamento da via, a esperança é que todos sejam levados para abrigos ou ganhem um auxílio-moradia para recomeçar. 

"Eu daria minha palavra que nenhuma de nós voltaria a ocupar esse local público. Eu queria um auxílio, um pedaço de terra. Cabia nós tudinho. Isso não faria diferença no bolso dele. Quero mostrar que a gente também existe e precisamos de ajuda. A sociedade também pode colaborar com nossa situação. Tem muita gente que nos olha com desprezo. Somos gente, é a mensagem que quero deixar", pontua. 

Com medo de uma nova represália pelos funcionários da Guarda Municipal, um dos moradores preferiu não se identificar, mas afirmou que apesar morar em um posto policial desativado, a segurança na Aurora aumentou com a presença dos moradores de rua ocupando a estrutura. "Estamos aqui e ficamos acordados praticamente 24 horas. Nossa presença faz a diferença", diz. 

Prefeitura garante ativação do posto para Agosto

Procurada pela reportagem do LeiaJa.com para esclarecer como é feito o mapeamento dos moradores em situação de rua no Recife, a Prefeitura informou que monitora os moradores de rua que vivem na Rua da Aurora através do Serviço Especializado em Abordagem Social de Rua (SEAS). De acordo a gestão municipal, a Secretaria de Desenvolvimento Social, Juventude, Política sobre Drogas e Direitos Humanos "mapeia as pessoas em situação de rua em toda a cidade e trabalha com a sensibilização e orientação, visando o resgate da cidadania e a retirada consensual dessas pessoas das ruas", conforme informações oficiais da nota de resposta. 

Apesar da constatação do LeiaJa.com de que mais de doze moradores vivem no quiosque e afirmam não receber propostas de encaminhamentos para abrigos para saírem do local, a Prefeitura do Recife informou que apenas quatro pessoas vivem na Rua da Aurora. Dessas, três solicitaram acolhimento e estão aguardando vaga numa das casas de acolhida da gestão. "A quarta pessoa não teve interesse em acolhimento; apenas solicitou atendimento médico do Consultório na Rua. Uma quinta retornou para a casa da família". 

Por meio de nota, a prefeitura também explicou como é feito o processo de abordagem dessas pessoas que vivem nas ruas. "Sempre que há aceitação, as equipes do SEAS fazem os encaminhamentos para acolhimento, retirada de documentos, acesso à rede de saúde, inclusão em programas e benefícios sociais e tentativa de reintegração com a família". 

Questionada sobre o abandono do quiosque da Guarda Municipal da Aurora e sobre seu devido uso, a Secretaria de Segurança Urbana do Recife informou que o mesmo passará por uma requalificação para, em agosto, se tornar um posto fixo da corporação. Sobre o futuro dos doze moradores que vivem no local e fazem dele um lar, a gestão não comentou para onde serão encaminhados e qual planejamento para evitar novas ações de retirada violentas. 

Ponto de partida para muitos viajantes, destino final para outros, local de reencontros e também de desencontros, a Rodoviária do Recife, também conhecida como TIP (Terminal Interestadual de Passageiros) recebe mais de dez mil pessoas diariamente e registra cerca de 300 saídas e chegadas de ônibus para diversas rotas do Brasil. Apesar da efemeridade nas relações de alguns passageiros com o terminal, algumas pessoas fazem da rodoviária a sua morada, temporária ou permanente. Elas nem sempre estão à espera de um ônibus, mas de esperança por dias melhores e oportunidades.

Para entender os motivos da rodoviária servir de moradia para muitos, a reportagem do LeiaJa.com foi até o Terminal Interestadual de Passageiros da capital pernambucana e ouviu histórias da presença desses moradores do TIP. A estação fica localizada há 6 km do centro da capital, na BR-232, no bairro da Várzea.

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A rodoviária de Recife é integrada ao sistema de metrô local, pela Estação de Metrô Rodoviária. A ligação física é feita através de uma passarela com cerca de 300 metros. Em um trecho um pouco mais íngreme da estrutura de concreto, Daniel Nunes de Freitas, 51 anos, colocou seus poucos pertences e fez do espaço sua nova casa.

Do encarceramento às passarelas do TIP

A rodoviária não permite que as pessoas se deitem dentro da estação, mas Daniel garante que na passarela ele não é obrigado a se retirar pelos funcionários. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

Daniel, mais conhecido como 'Coroa' entre os funcionários do TIP, chegou ao local há 14 anos e se divide entre as ruas do Grande Recife e a passarela. Deitado em um colchão azul rasgado nas laterais e que já não tem tantas espumas para diminuir o impacto com o chão, o morador dorme ao lado de tudo que lhe restou: sua mochila, um cobertor e as mercadorias para garantia do seu sustento.

A rodoviária não permite que as pessoas se deitem dentro da estação, mas Daniel garante que na passarela ele não é obrigado a se retirar pelos funcionários. Apenas quando há chuva de vento, que molha o chão. Ele conta que procura por um local mais protegido por causa do frio. Coroa foi morar na rua desde a perda da mãe e do pai. Ele casou com uma moça moradora de Serra Talhada, município do Sertão de Pernambuco, e teve três filhos, mas ela o abandonou e levou as crianças.

“Sinto muita saudade dos meus três filhos, principalmente no Dia das Crianças. Já não tenho como entrar em contato com eles porque não sei onde moram e nem tenho telefone. Ela levou tudo e nem fotos me sobraram”, relembra. Daniel diz que também já prestou queixa no Departamento de Polícia da criança e do Adolescente (DPCA), mas há algum tempo perdeu as esperanças.

Apesar de ser um dos únicos que têm um colchão, Daniel conta que dormir não é uma tarefa fácil e só fecha os olhos quando o corpo já não aguenta. “Eu vivo aqui, mas enquanto estou dormindo estou morto, não vejo nada. Queria arrumar um cantinho entre quatro paredes longe do frio e protegido da chuva, tá ligado?”.

Em suas unhas, restou um fungo, adquirido quando ele trabalhava limpando as canaletas do esgoto de um cemitério. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

O chapéu é o companheiro inseparável de Daniel. Tem vergonha da falta de cabelos. Na mochila, ele carrega duas mudas de roupa que variam de acordo com o dia mais frio ou mais quente e seus documentos. Nas mãos, marcas de quem trabalhou intensamente durante um período da vida. Em suas unhas, restou um fungo, adquirido quando ele trabalhava limpando as canaletas do esgoto de um cemitério. O morador mostra uma pomada que recebeu do posto de saúde, mas o remédio não parece fazer efeito. 

Apesar de não se dizer uma pessoa triste, o Coroa nunca teve vida fácil. “Nunca fui santo”, afirma. Preso pela primeira vez aos 15 anos, não se recorda bem o motivo, mas acha que foi por uma confusão de rua. “Eu tinha fugido de casa porque a minha mãe de criação não acreditava no que eu falava”, diz. Trabalhando na rua desde muito novo, Daniel vendia picolé na Praça do Derby. Certo dia, um casal prometeu levá-lo embora, mas nunca voltaram. “Eu ia trabalhar todo dia e ficava chorando, esperando por eles porque eu não queria viver com a minha família”.

Aos 21 anos, diz ter escolhido o caminho mais fácil pela falta de perspectiva e entrou no mundo das drogas. Foi preso quando estava transportando maconha com um amigo. “A polícia chegou, ele pulou no rio e eu fiquei sozinho. Não sabia nadar”, fala. Na prisão, Coroa relembra que sua pena não era tão alta, mas ficou lá por nove anos porque se envolveu ainda mais com as drogas. Na pele, tatuagens desfiguradas e feitas de forma improvisada durante o período encarcerado. 

Por volta dos 30, ele saiu da prisão e as perspectivas de vida eram quase nenhuma. Abandonado pela família, ele encontrou na rua uma forma de sobreviver. “Tento conseguir alguma coisa pra mim, ando procurando emprego, mas ninguém me dá trabalho porque sou ex-presidiário. Eu me viro vendendo um saco de pipoca e água no ônibus. Já fui operado três vezes com hérnia e úlcera e estou na luta pelos meus direitos no INSS”, diz.

Morar na rua não é fácil. Durante a conversa, Daniel foi comprimentado várias vezes por funcionários do TIP, mas apesar de ser conhecido por muitas pessoas, ele diz se sentir invisível muitas vezes. “Às vezes me bate aquele desespero, fico pensando em fazer maldades comigo porque ando pra todo canto com documento e currículo mas nunca dá certo”.

Além dos pertences que restaram, Daniel também carrega o sonho de conseguir alugar uma casa para sair da rodoviária. “Meus irmãos de criação não me deixam voltar pra casa da minha mãe, mesmo eu tendo direitos. Me deixam entrar tomar banho, mas não posso dormir,  Me sinto abandonado, sabe?”, lamenta. Ele diz que já passou por tanta coisa na vida que atualmente não tem mais medo de nada. “Por mim tanto faz, como tanto fez. Minha vida é essa. Quem tem fé em Deus tem tudo. Eu acredito nisso. Meu sonho mesmo é voltar ao que eu era, eu andava como quem pisa em isopor. Hoje eu carrego bem dizer uns 200 quilos em cada pé porque tudo que eu planejo dá errado”.

O dia em que o operador parou as máquinas


Pai de cinco filhos e avô, ele diz não presenciar o crescimento dos seus descendentes e não tem perspectiva de sair da rodoviária. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

Do outro lado da rodoviária, na entrada do piso térreo, embaixo do ponto de ônibus que serve de desembarque dos coletivos municipais que chegam ao TIP, o lavador de carros Giovane Francisco, de 42 anos, diz estar com fome porque já se aproxima da hora do almoço e ele ainda não conseguiu nenhum dinheiro para se alimentar. Morador da estação há quatro anos e seis meses, ele diz que rua nunca foi e não será lugar para ninguém morar.

Pai de cinco filhos e avô, ele diz não presenciar o crescimento dos seus descendentes e não tem perspectiva de sair da rodoviária. “Já fui tratada muito mal, feito ladrão e maloqueiro. Eu sofro, não durmo direito, não como direito e sou muito descriminado. Eu lutei para ter meu espaço aqui, mas não foi fácil. Há seis meses queimaram todos os meus pertences e fiqueiapenas com a roupa do couro. A gente que vive na rua, tem muitos inimigos e a nossa aparência é o nosso documento principal”, disse.

Giovane era morador do bairro do Curado II, em Jaboatão dos Guararapes. Da rodoviária, ele aponta para o morro onde vivia com a família. “Era bem alí, moça”, diz. Fez cursos e aprendeu a operar máquinas de indústria. Na época, trabalhava como operador em um fábrica de papel em Jaboatão Velho. “Eu tinha uma vida muito boa, era casado, tinha uma casa excelente e uma família presente”, recorda. Ele se lembra exatamente o dia em que tudo mudou e a sensação que sentiu.

“Eu estava operando a máquina três e fui avisado que tinha uma ligação de urgência pra mim na recepção. Retirei os equipamentos e quando atendi o telefone. Disseram que o meu filho estava internado no Hospital Otávio de Freitas. Ele tinha dois anos”, conta. Aos 21 anos, Giovane perdeu seu primogênito. “Ele morreu por causa de uma pessoa que não gostava de mim e quis se vingar”. O morador da rodoviária não deixa claro como aconteceu a morte da criança, mas as consequências foram um divisor de águas em sua vida.

“Eu abandonei o emprego, fui parar no manicômio e surtei. Eu tinha 21 anos e isso me chocou”.  A rua foi o único lugar que ele conseguiu o amparo que precisava na época. Uma pausa na conversa. Giovane chora ao relembrar das feridas do passado. “Hoje em dia vivo na rua e sinto falta da minha mãe, dos meus outros filhos. Eu passo fome, dificuldade, mas tudo poderia ter sido diferente”, lamenta.

A rotina como morador da rodoviária é dura, apesar de ser melhor do que viver nas ruas. Giovane diz que há uma série de regras a serem seguidas para evitar problemas com os “homens de branco”, referindo-se aos funcionários da Socicam, empresa administradora do TIP. Eles também tiveram de se habituar a uma espécie de toque de recolher. Às quatro da manhã são obrigados a acordar e levantar do chão. Parar nos papelões que servem de apoio para não encostar no chão sujo, só é permitido a partir das 18h. 

Atualmente, o sonho dele é conseguir um emprego dentro da rodoviária porque ele já mora lá e conhece muito bem o local. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

O ex-operador de máquinas diz que ganha alguns trocados lavando carros dentro da rodoviária de forma escondida. “Eles não me deixam lavar na frente do TIP porque dizem ficar muita lama e uma nojeira. Muitas vezes, os clientes não deixam eu levar carro para longe porque não confiam em mim. Aí, eu sem ter como ganhar nenhum dinheiro, é muito triste”, lamenta.

Roubar ou furtar são pensamentos que já passaram na cabeça dele por alguns momentos por causa do desespero, mas é momentâneo e passa no instante em que ele olha a situação do Brasil. “Na situação da gente, se formos roubar e cair na cadeia, vai ser pior ainda. Vamos mofar lá”, conta. Em uma breve aula sobre a vida na rua, Giovane elenca três tipos de moradores de rua: “existe o ladrão, o morador de rua sujo que não toma banho, e o mangueador, esses somos nós. A gente não pede por pedir. Contamos histórias, e mesmo se ninguém quiser nos ajudar, desejamos o bem”, explica.

O dinheiro arrecadado nos bicos serve para se alimentar diariamente. “Os comerciantes daqui preferem jogar os restos da comida no lixo, numa coleta daqui. Agora, se a gente pedir às pessoas que estão comendo, alguns dão um trocado ou pagam um lanche”, fala. Para tomar banho, ele diz que a ficha na rodoviária custa três reais e raramente faz uso do banheiro lá porque a água é pouca e dura apenas um minuto. “Eu procuro um rio, riacho ou alguma bica perto daqui e me limpo”, diz.

Atualmente, o sonho dele é conseguir um emprego dentro da rodoviária porque ele já mora lá e conhece muito bem o local . “Eu sei que muitos moradores de rua roubam e não são de confiança. Mas eu sou uma pessoa boa e trabalhadora. Pelo tempo que estou aqui já poderia estar empregado ou fazendo qualquer bico como vigia. Mas eles não me querem simplesmente porque eu moro na rua e não tenho um CEP”, atesta.

A 48 horas do reencontro com a felicidade

Ao contrário dos que buscam a rodoviária do Recife como residência fixa, Ivan, de 43 anos, diz que sua estadia no local é apenas passageira. Natural de São Paulo, mas com família em Pernambuco, o programador de web desembarcou na capital pernambucana há mais de mais de dez anos. Ele morava em SP e conheceu a prima. Casaram e vieram morar em Caruaru. Ele relembra que trabalhou por muitos anos no Ibope. “Evoluí na empresa, saí da parte de coleta e ganhei espaço na área de programação. Tenho cursos de Java, Excel, também conserto computador e celular.

Ivan diz que morou na casa do pai durante um tempo após a separação, também se apaixonou de novo, mas a depressão, o vício e a falta de autoestima o levaram ao mesmo caminho. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

Quando ainda morava em São Paulo, Ivan já travava uma luta contra o vício nas drogas. Ele viu na prima caruaruense uma chance de recomeçar a vida em outro estado e buscar um tratamento para ficar limpo. Morando em Caruaru, a vida parecia traçar um rumo correto. Ele teve dois filhos com a prima e conta que sabia do risco de engravidar uma familiar de primeiro grau, mas o amor falou mais alto e eles tentaram arriscar.

A probabilidade dos nenéns nascerem com alguma doença congênita existia e o destino foi cruel. Os dois filhos foram diagnosticados ainda jovens com cistinose nefropática. Doença rara genética que afeta principalmente os rins, mas que pode afetar negativamente todo o corpo. O primeiro filho faleceu em 2007 com oito anos. A filha morreu aos 15. Para Ivan, com uma vida relativamente estruturada, o choque foi muito grande e o vício nas drogas e no álcool voltou a tona.

Morando há cinco dias na rodoviária, mas há um tempo na rua, o programador tem o entendimento racional do que o levou para a rua. “Muita gente acaba na rua por diversos fatores. Por causa de desilusão amorosa, perda de filho ou um choque grande.  A droga também é muito presente em nossas vidas. Às vezes a pessoa tem dinheiro, uma vida boa, estudo, mas em um determinado momento da vida, tomou uma pancada e não teve  o poder de reação para aquela situação. E aí a gente acaba sendo acolhido pela rua”, explica.

Ivan diz que morou na casa do pai durante um tempo após a separação, também se apaixonou de novo, mas a depressão, o vício e a falta de autoestima o levaram ao mesmo caminho. “Passei um tempo em Olinda, Pau Amarelo e fiz bicos como pedreiro, até que não aparecia mais nada. Eu não tinha opção. Sem endereço e sem telefone ninguém vai querer me contratar para nada”, diz.

Ivan mal havia chegado a rodoviária e enquanto dormia em um papelão emprestado foi furtado. Levaram todos os seus documentos. A ele restou apenas as roupas que veste e um exemplar do dia anterior de um jornal. “Gosto de ler os editoriais, meu pai é jornalista e sou interessado pela política do Brasil”. Durante a conversa, o Giovane, um de seus “vizinhos” da rodoviária, chega com um pote cheio de restos de comida que conseguiu com um dos restaurantes da rodoviária. “Vou dividir com meus amigos”.  

Ivan não sabe quanto tempo vai ficar morando nas instalações do TIP, mas faz de sua passagem um aprendizado diário. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

Ivan agora tenta conseguir algum dinheiro para retornar à São Paulo e colocar sua vida no eixo em sua terra natal. A sua felicidade está a 48 horas e depende do embarque no ônibus Itapemirim, que segue rumo à capital paulista. “Estou esperando o retorno de um assistente social. Ele ficou de vir aqui e me falar sobre um auxílio que estou esperando. Enquanto isso, a gente se ajuda aqui. É tipo uma família passageira. Quando a gente junta dois papelões e quatro maloqueiros juntos nos familiarizamos”, conta.

Para ele, uma das maiores dificuldades é dormir no chão. “No papelão até conseguimos cochilar, mas é muito duro. Tenho saudades de uma cama. É uma soma de diversos fatores e você acaba dando uma pirada. É um quadro de depressão grande", diz.

"Querem te levar pra um abrigo e lá não tem bebida nem drogas. E muitas vezes o álcool distrai a sua realidade porque se não você fica maturando aqueles problemas e a droga ameniza o sofrimento”, explica. Ivan não sabe quanto tempo vai ficar morando nas instalações do TIP, mas faz de sua passagem um aprendizado diário.

 O destino final sem volta

O colecionador de fotos já viajou o país inteiro e conheceu parte da América do Sul. Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

Peço licença para sentar em seu papelão e ele logo cede todo o espaço para a minha acomodação. Nem o sono de uma noite mal dormida faz com que o aposentado Antônio Lisboa Cavalcanti, 76 anos, fique entusiasmado em contar sua história.

O pernambucano nato diz que o destino não colaborou e o tratou de mandar para as ruas de São Paulo há trinta anos. Apesar da situação de rua, Antônio cheira a alfazema, perfume muito utilizado por avós e avôs. As poucas roupas que carrega estão bem conservadas e nos pés, uma sandália de dedos feita com couro.

Atualmente, o idoso vive em um albergue na capital paulista, que são espécies de casa de acolhimento para moradores em situação de rua. Ele foi viver na rua após a sua esposa o trair com o seu melhor amigo.

“Não aguentei, eu era jovem e fiquei desiludido. Fui parar no mundo”, lembra. Antônio tinha uma vida boa. Se orgulha em dizer que sua profissão de metalúrgico é a mesma do Lula, ex-presidente do Brasil.

Ele chegou na rodoviária há vinte dias por não ter onde ficar no Recife. Antônio conta que viajou de São Paulo até a capital pernambucana para visitar os filhos e os netos. A missão foi cumprida e os filhos “doutores”, como ele mesmo define, não o acolheram bem. “Um é oficial de justiça  e o outro é advogado e vive viajando pelo mundo”, diz.

Antônio, então, decidiu retornar à São Paulo, mas não tinha mais dinheiro para comprar a passagem. “Eu não peço nada a ninguém, nunca fui de pedir. Eu conto a minha história e as pessoas me ajudam porque se emocionam”, diz. 

Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens

Para o aposentado, sua vida é um livro aberto de sofrimento. “No momento em que minha mãe morreu, eu nunca mais tive paz”, diz. Mulherengo, apaixonado por fotografia, e amante de viagens podem resumir 'Toninho', como gosta ser chamado. Ele também é batuqueiro de escola de samba, diz orgulhoso. “Eu sou apaixonado por forró, mas o samba também faz parte da minha vida”, conta.

Morando na rodoviária, o idoso conta que sofre com constantes dores nas costas por causa do chão duro e não vê a hora de voltar para São Paulo. O colecionador de fotos já viajou o país inteiro e conheceu parte da América do Sul.

“Agora estou esperando receber a minha aposentadoria para retornar ao meu lar comunitário em São Paulo e não quero voltar mais. Lá eu tenho amigos”, fala. Sem tomar café da manhã ou almoçar, o aposentado diz que passa por uma das maiores vergonhas da vida dele, mas que vai superar e faz da fé em Deus seu guia de voltar ao seu destino final.

A Justiça Federal determinou a inclusão dos moradores de rua no grupo prioritário para vacinação contra gripe no Paraná. A quantidade de pessoas que se encaixam nesta condição é de quase 4 mil em todo o estado, de acordo com dados do Cadastro Único do Governo Federal.

A decisão foi concedida em caráter de urgência pela 3ª Vara Federal de Curitiba, a partir de um pedido do Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público Estadual do Paraná (MPRP) no dia 8 de maio.

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Na ação, a procuradora da república Eloísa Helena Machado e o promotor de justiça Marcelo Paulo Maggio exigiram a vacina por conta da condição climática do estado. “O clima e o frio constituem fatores capazes de desencadear problemas de saúde a essa população na região sul do Brasil", disse o promotor. Ambos pediram a inclusão deste grupo nas prioridades estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

Os argumentos foram acolhidos pela juíza da 3ª Vara Federal de Curitiba, Ana Carolina Morozowski, responsável pela ação. Na decisão, ela concordou que moradores de rua fazem parte dos grupos de risco. "Não só porque eles, via de regra, possuem doenças associadas, o que já os incluiria como destinatários principais da vacina, como também porque eles costumam procurar tardiamente os serviços de saúde, quando a situação já está bastante agravada, e o remédio contra a gripe já não faz mais efeito". A juíza também considerou a condição dos moradores de rua e o número relativamente baixo de doses necessárias à sua imunização como aspectos favoráveis ao consentimento sobre pedido do Ministério Público.

A decisão vale para a campanha de vacinação de 2017 no Paraná.

Na inauguração do primeiro Centro Temporário de Acolhimento (CTA) para moradores de rua na capital paulista, nessa quarta-feira (11), o prefeito João Doria (PSDB) prometeu entregar um equipamento do tipo a cada mês até o fim da sua gestão: ao todo, serão 44 até 2020. A Prefeitura estima que 25 mil pessoas morem nas ruas da capital.

Com novidades como acolhimento 24 horas, canil e garagem para carroças, o local foi construído para atrair moradores de rua, que, ouvidos pelo Estado, queixam-se de horários restritos, presença de percevejos e falta de espaço para abrigar os cães em outros albergues municipais. O CTA foi inaugurado ainda sem a conclusão do canil, que poderá abrigar 11 cães a partir do fim de maio. Já foram recebidas doações de camas, rações e potes. O albergue tem capacidade para 164 pessoas: 102 homens e 62 mulheres, incluindo os quatro leitos para pessoas com mobilidade reduzida. Embora tenha o nome "temporário", o CTA não tem tempo de permanência fixo.

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Por uma semana, das 9 horas às 16 horas, os moradores têm curso de profissionalização para as 10.020 vagas do programa Trabalho Novo. Atualmente, participam do projeto mais de 20 empresas dos ramos alimentício ao farmacêutico, tendo contratado 477 moradores de rua. Até o fim de 2017, a expectativa da Prefeitura é obter 20 mil vagas de trabalho.

Queixas

Marcelo Gomes, de 45 anos, mora há três anos na rua. Na Mooca com dois cachorros, ele afirma que canil e curso resolverão parte dos problemas práticos. "Estou fazendo curso de informática e de DJ. Inclusive, sou o MC Zói e os Dogs, sabia? Mas quem vai me contratar pela experiência que tenho?"

Para Daniel Guerra, de 33 anos, o cenário de um abrigo "dá até medo" e "parece cadeia". Guerra aponta como um dos principais problemas dos abrigos a limitação de horário de entrada e de saída para quem quer fazer pernoite. "Quem trabalha à noite, por exemplo, como faz para dormir de dia?"

Ininterrupto

O secretário municipal da Assistência Social e do Desenvolvimento, Filipe Sabará, explica que há convênios com centros de acolhida em dois modelos: de 16 e de 24 horas. A gestão Doria avalia estratégias para unificar os centros de acolhida no horário ininterrupto. Sabará afirma ainda que há um estudo em andamento na pasta para calcular o impacto econômico de aditamento do contrato que estenderia de 16 para 24 horas o horário de funcionamento dos equipamentos. "Estamos trabalhando para que todos sejam 24 horas. Mas nem todos podem assim por questão de espaço físico e de vagas de cama", explica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Entre os dias 6 e 30 de maio o Teatro Adamastor Centro, em Guarulhos, vai receber a exposição “Moradores de Rua e Seus Cães" elaborada em 2012 pelo fotógrafo Edu Lepopro.

Além da abertura que vai acontecer neste sábado (7), às 19h, a mostra terá uma palestra do artista que pretende destacar o início das pesquisas nas ruas, os retratos, histórias e seu projeto social.

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“Eu sempre via cães de ruas com seus donos e queria saber como era a vida deles: como eles se viravam, como viviam, como faziam para comer, dormir, beber e etc. Assim nasceu a ideia do projeto”, destaca Leporo.

A entrada é gratuita e para os interessados em adquirir o livro com as fotografias do artista é necessário doar um pacote de ração, que será invertido para o projeto social.

O Adamastor Centro fica na av. Monteiro Lobato, nº 734, Macedo, Guarulhos. 

Guarulhos tem mais de 4 mil pessoas em situação de rua, segundo dados do programa Cidades Sustentáveis. Na região central da cidade, moradores de rua fazem de pedaços de papelão suas camas e de restos de cobertor seu único abrigo. A prefeitura da cidade tem albergues para acolher essas pessoas durante a noite, porém a maioria não se dispõe a utilizar esse serviço.

Yuri Rieth, de 46 anos, é um grego naturalizado brasileiro que atualmente vive na praça Presidente Getúlio Vargas, no Centro de Guarulhos. Ele mora nas ruas há 25 anos devido a desentendimentos familiares. “Minha mãe é fanática religiosa, meu padrasto um bêbado e meu pai fugiu com outra mulher”.

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Albergues da prefeitura o incomodam pois, segundo ele, são lugares que passam a sensação de confinamento.

José Carlos, de 48 anos, é natural de Cipó, na Bahia. Ele veio para Guarulhos há cinco meses, atrás de uma falsa promessa de emprego. Apesar de ter um irmão em Santos, ele recusa qualquer tipo de ajuda da família.

Enquanto espera conseguir um trabalho, ele se mantém longe dos vícios. “Minha atual situação não é motivo pra cair na droga e na bebida”, afirma.

Residindo atualmente embaixo da ponte estaiada, José Carlos consegue lavar suas roupas e se alimentar em albergues. Além disso, consegue doações de moradores da região.

As ONGs também são um importante apoio para a população de rua. Criada em 2013, a ONG Forte acolhe homens em situação de rua, que tenham entre 18 e 50 anos e que estejam dispostos a ingressar no mercado de trabalho e se integrar à sociedade. Há duas maneiras pelas quais um morador de rua começa a ser atendido pela organização: a principal é ser indicado por um grupo de assistência a população de rua pertencente à igreja Bola de Neve e a outra forma é a pessoa procurar diretamente a ONG, de maneira espontânea. Não há parceria com o poder público, embora algumas propostas estejam em processo de análise.

Todas as pessoas que estão hoje em atendimento são usuárias de drogas, o que dificulta, muitas vezes, o processo de reintegração desses moradores de rua à sociedade. Como a ONG Forte não trabalha com redução de danos, isto é, não permite a utilização de nenhum tipo de droga (mesmo as lícitas, como o álcool), muitos não resistem à abstinência e acabam abandonando o projeto.

A psicóloga Camila Bittecourd, que é coordenadora geral do projeto, explica que a rotina dos moradores é cheia de atividades e de responsabilidades, para que eles se esqueçam da vida da rua e também para que passem a entender a importância das tarefas de limpeza e organização. O dia começa às 7h com uma roda de conversa, seguida pelo café da manhã e pelo trabalho de reciclagem. Após o almoço, o trabalho é retomado até as 15h e depois disso os assistidos participam de palestras e cursos de fotografia, culinária, informática, grafite e também aulas de português e matemática, pois muitos não são alfabetizados.

A metodologia da ONG Forte se baseia em três passos: resgatar, restaurar e reintegrar, cada um deles com duração de três a quatro meses. O serviço inclui triagem com assistente social, acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Se a pessoa não possui documentos, eles são providenciados e o assistido é cadastrado nos programas sociais do governo. Caso o morador de rua deseje, a equipe entra em contato com a família dele para tentar uma reaproximação. Por fim, o indivíduo começa a procurar emprego, com ajuda dos voluntários da ONG. Quando consegue trabalho, ele ainda recebe ajuda da organização para encontrar uma moradia e montar seu “enxoval”.

O projeto funciona em uma casa alugada e 80% dos custos são bancados com o trabalho de reciclagem realizado pelos próprios assistidos. Os 20% restantes vêm de doações em dinheiro, alimentos, roupas e outros materiais. A mão-de-obra é composta por cerca de 100 voluntários, entre psicólogos, assistentes sociais, advogados, enfermeira, nutricionista, médico e dentista, que visitam a casa semanalmente.

 

Por Aline Caroline dos Santos Souza e Caio Portella

 

 

 

A gestão João Doria (PSDB) quer transformar 2 mil moradores de rua da capital paulista em sorveteiros. Desenvolvido em parceria com a Unilever, dona da marca Kibon, o projeto prevê que os futuros selecionados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social atuem nos parques públicos de São Paulo como profissionais autônomos.

Segundo a responsável pela pasta, Soninha Francine, as vagas serão oferecidas pela empresa de forma gradual ao longo dos próximos quatro anos. As pessoas que forem selecionadas passarão por um processo de capacitação e treinamento para que se tornem microempreendedores individuais (MEIs) e consigam trabalhar por conta própria.

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Doria anunciou a ideia durante duas palestras oficiais que deu a empresários da capital paulista e de Belo Horizonte. O projeto faz parte do programa Trabalho Novo, lançado pelo prefeito em janeiro com o objetivo de empregar 20 mil pessoas que vivem nas ruas da cidade.

De acordo com Soninha, o programa terá o cuidado de selecionar pessoas com perfis que se encaixem na proposta de trabalho autônomo e também de acompanhar os resultados.

"Já temos a figura do trabalho assistido na Prefeitura, na área de saúde mental, por exemplo. A Assistência (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social), ao logo do tempo, também lidou com algumas experiências", afirma Soninha. "A diferença agora é que meu secretário adjunto (Filipe Sabará) ficará diretamente dedicado a esse projeto, sob a batuta do prefeito, que cutuca o setor privado em busca das vagas e do compromisso de que o departamento de recursos humanos das empresas esteja preparado para receber as pessoas e integrá-las aos colegas."

Para Soninha, ofertar diferentes tipos de trabalho para os moradores de rua é importante porque há diferentes perfis nessa população. "Tem gente que se adapta à rotina de uma empresa, mas tem gente que exige uma coisa mais livre - e esse é o cara que pode ser sorveteiro. Seria muito errado então só ter a possibilidade de um emprego com carteira assinada, crachá, ponto. O legal é ter muitas e diversificadas ofertas de trabalho", afirma a secretária.

Último balanço da pasta mostra que 150 moradores de rua tiveram a carteira assinada por meio do programa, a maior parte em empresas de limpeza. "E o que é muito legal é que algumas dessas empresas prestam serviço para o Hospital das Clínicas, local que eles gostam muito de trabalhar, se sentem privilegiados lá", conta.

Interesse

Há três anos nas ruas de São Paulo, Amaral de Souza, de 35 anos, diz estar disposto a virar sorveteiro e chegou a duvidar da proposta da Prefeitura. "Será mesmo que vão oferecer isso para a gente? A gente quer trabalhar, espero que seja verdade." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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